Autonomia profissional e o que o patriarcado NÃO fez por nós – todos.

Se pesquisarmos pelo termo patriarcado na internet, quase nada aparecerá em torno de autonomia profissional e tampouco a origem do patriarcado e como essa cultura foi instituída em nossa sociedade. Bom, ao menos em artigos mais curtos e nos primeiros resultados de busca.

Boa parte do que encontraremos sobre o sistema patriarcal ainda amplamente vigente nos dias de hoje nos levará para debates em torno da desigualdade de gêneros, assim como seus efeitos em torno deste recorte.

Neste artigo, a proposta é falar sobre a origem do patriarcado e seus efeitos como um todo em nossa sociedade nos dias atuais, especialmente no que diz respeito a nossa autonomia. Ainda mais, quando se trata de autonomia profissional. Talvez o artigo mexa com a sua zona de conforto – mas é por uma boa razão, confie. Para todos nós.

A origem do patriarcado segundo Humberto Maturana

Humberto Maturana é um reconhecido biólogo chileno e também hoje considerado um filósofo de peso que representa nosso continente de forma admirável. Um pesquisador fora de série a respeito de como nascem as culturas, inclusive.

Em uma de suas obras, intitulada “Amar e Brincar – Fundamentos esquecidos do humano”, que escreveu junto com Gerda Verden-Zoller, eles amarram seus estudos e investigações em torno da cultural patriarcal européia – da qual somos hoje herdeiros no Brasil – as relações entre mães e filhos e fundamentos da democracia. Sen-sa-cio-nal!

A primeira parte do livro todo é dedicada a nos explicar sobre como nascem as culturas e especialmente um ensaio sobre hipóteses em torno do surgimento do patriarcado. Interessante que ao longo da obra ele enfatiza bastante frases como “eu acredito que”, deixando muito claro que apesar de muita pesquisa, não se pode afirmar nada como certo, já que existem muitos indícios arqueológicos, mas que não deixam de ser indícios.

Ao ler o livro pela 1ª vez, entre tantas frases marcantes, essa aqui me pegou bastante:

“… por meio do emocionar da apropriação, o patriarcado criou o espaço psíquico que tornou possível a destruição da colaboração fundamental de homens e mulheres, própria da vida matrística.”1

E logo depois complementa:

“Pensamos ainda – e propomos neste texto – que a servidão e a escravidão da mulher são secundárias ao patriarcado, e não fatores de geração desse.”2

Minha vontade é de reproduzir umas 50 páginas deste livro e a história, segundo seu olhar e estudos, de como o sistema patriarcal foi sendo criado e modelado ao longo dos milhares de anos. Mas é muito mais ético você adquirir o livro, se houver interesse em expandir sua compreensão sobre um tema tão relevante na sociedade pós-moderna.

Por ora, pontuarei apenas mais algumas reflexões em torno do impacto disso tudo em nossa autonomia no trabalho e também pessoal. Afinal, somos seres integrais, não é mesmo?

A cultura patriarcal, seus ensinamentos e como conservamos boa parte disso até hoje

Maturana nos explica que uma cultura se forma a partir do momento em que eventos passam a ser repetidos e conservados geração após geração. Sendo bons ou nem tanto – se os conservamos, reproduzindo continuamente certos eventos, estamos contribuindo na sedimentação de tal cultura.

Ele conclui que:

“A cultura patriarcal valoriza a guerra, a competição, a luta, as hierarquias, a autoridade, o poder, a procriação, o crescimento, a apropriação de recursos e a justificação racional do controle e da dominação dos outros por meio da apropriação da verdade.4”

E é exatamente pela afirmação acima que optei por trazer luz a algumas sombras. Como disse no início do artigo, a maior parte dos resultados “à mão” na internet em torno do assunto remetem ao debate da desigualdade de gênero. Para estes, fiz uma boa curadoria para quem tiver interesse em compreender melhor, com os links ao final deste artigo.

Mas a pergunta que ainda me intriga é:

“Tudo isso que é valorizado pela cultura patriarcal… quem fomenta até hoje?”

Releia o trecho em destaque aí em cima de novo e me diz: no seu dia a dia, independente de seu gênero, raça, religião e crenças, você não faz nadinha nadinha do que está aí?

Sem dúvida existem graus e graus. Mas proponho que antes de olharmos para a grama do vizinho, que primeiro cuidemos do nosso próprio jardim. E assim que o nosso estiver bem bonito e saudável, que tal dar um forcinha, começando pelos que estão mais propensos a também arrumarem os seus e pedem por ajuda? : )

Os efeitos do patriarcado nos dias de hoje

Uma outra frase que me fez refletir bastante – e ainda estou até hoje – é esta aqui:

“O que dificulta o viver democrático, no meio de uma cultura patriarcal que a nega continuamente, é que as pessoas que querem viver a democracia são patriarcais por natureza”.3

Eu não nego que me descobri negando esta cultura “em mim”. Não ao meu redor, já que era muito claro para mim que eu era “obrigada” a conviver com ela. Mas ao ler a obra do Maturana, me choquei, comigo mesma.

A começar, por me sentir impotente frente a tantas injustiças que percebia e ainda percebo, mas também por me dar conta de como silenciosamente, em outros aspectos dessa herança, eu reproduzia e ainda reproduzo muitos de “seus” ensinamentos, digo, do patriarcado.

Para elucidar um pouco melhor isso em torno da questão da autonomia profissional e por que ela é importante vamos a um caso prático e recente.

Caso prático em torno de autonomia profissional

Meados de 2020, São Paulo, SP: Parte da população se junta e propõe um boicote online, demonstrando muita empatia aos entregadores de delivery por meio de aplicativos que não tem “direitos trabalhistas”. O boicote promove a ideia de ninguém pedir comida delivery, pressionando as empresas, donas dos aplicativos, a repensarem seus modelos de negócio.

Acontece que uma parcela significativa de entregadores reivindicou o contrário: “quando vocês não pedem, eu deixo de ganhar. Não se preocupem com isso, continuem me ajudando como estavam. Deixem que nós mesmos cuidemos disso”. Olhe só o mundo complexo em que vivemos.

Quem pode saber o que é melhor para si do que cada ser humano por si só?

Isso é apenas um simples exemplo do reflexo de nossa cultura patriarcal e paternalista. Tendemos a querer cuidar – muito bem intencionados, eu não tenho dúvidas – do que alguns entendem como “os fracos e oprimidos”, como se eles não fossem capazes de cuidarem de si próprios.

E com isso, conscientemente ou não, estamos conservando a cultura patriarcal além de também estarmos ensinando as crianças sobre isso – já que crianças simplesmente reproduzem o que sentem e observam no mundo.

Muitos dos trabalhadores que hoje atuam por meio de plataformas que os conectam com a demanda o fazem porque o querem, compreendem bem as vantagens da GIG economy e novas formas de atuação no mercado, com mais liberdade e autonomia – mas que sem dúvida também demanda mais responsabilidade.

Ao sairmos na defesa de uns, podemos prejudicar tantos outros. Por pura ignorância de nossa própria parte e por não termos desenvolvido nossa habilidade de um olhar mais sistêmico. Assim como de acharmos que sabemos mais que tantos outros. Olha a gente exercendo a apropriação da verdade aí, um dos valores do patriarcado.

Complexo? Eu sei. Mas é exatamente por isso que uma das grandes competências do século é aprender a lidar com a complexidade de nossos tempos.

Autonomia: de quem é o interesse em despertar isso em cada indivíduo na sociedade?

Taí uma herança maldita: mesmo os tidos como os mais tendenciosos aos privilégios por conta desta praga do patriarcado, não desenvolveram autonomia plena. Sempre, sempre tem alguém a quem eles têm que dizer “amém”.

Quando não, no mínimo obedecer a ordens. Mesmo que veladas. Ah! E também a quem culpar! Põe mais este nosso comportamento na conta do sistema patriarcal.

A lógica dominante e que se tornou uma cultura muito enraizada na sociedade é: “alguém sempre com mais conhecimento que você (lógica da posse e também da escassez) vai ditar o que é melhor para você – lhe cabe apenas aceitar que fulano ou ciclana sabem mais e ponto”.

Ou seja, em vez de apoiarmos os menos favorecidos a se autodesenvolverem, tendemos a tomar a frente e resolver os problemas deles, por eles. Isso também é paternalismo, proveniente dessa nossa cultura patriarcal. O quanto estamos, cada um de nós, contribuindo para que os outros desenvolvam sua autonomia?

O quanto estamos permitindo que tantos outros – como empregadores e clientes – definam o que é melhor para nós mesmos, por meio de discursos manipulados cheios de razão? Aaahh, a racionalidade! Outro ponto interessante que o Maturana aborda nesse livro.

Ainda tem muitas outras reflexões que o Humberto Maturana traz em torno da cultura do patriarcado e seus efeitos.

Por isso mesmo, sentimos de prosseguir com esse debate com mais gente, para assim expandirmos ainda mais a nossa compreensão do ponto de vista de nossas raízes e como podemos atuar para a regeneração de nossos sistemas, especialmente a relação com nosso trabalho e renda.

Assista a continuação desse papo que tivemos sobre “Autonomia, liberdade & responsabilidade: e o patriarcado com isso?” em nosso canal do Youtube.

Citações enumeradas ao longo do texto extraídas do livro Amar e Brincar – Fundamentos esquecidos do humano, Humberto Maturana e Gerda Verden-Zoller. Ed. Palas Athena. Citação “1” na pág 22, citação “2” na pág 23 e citação “3” na pág 103, citação “4” na pág. 37.

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Curadoria extra sobre o tema patriarcado, citada no texto:

O reflexo do patriarcado que nos levou a tanta desigualdade de gênero e social também:

·      Como A Sociedade Patriarcal Se Perpetua? Precisamos falar com os homens, no Canal da ONU Mulheres Brasil no Youtube e parceria com o Papo de Homem;

·      População brasileira ainda é patriarcal, mostra pesquisa do IPEA apoiada pela ONU, no site da ONU Brasil;

·      A influência do patriarcado nas leis de proteção ao trabalho da mulher, no site da Justificando;

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